Primeiros passos de um sonho

Alguns dos atletas do Time Brasil nos contaram o árduo caminho que percorreram para chegar no maior evento esportivo do mundo, os Jogos Olímpicos. E você, o que já superou na vida para chegar até aqui? Conte pra gente usando a hashtag #nossotimeéobrasil nas redes sociais.

Arthur Nory MEDALHISTA OLÍMPICO - GIN. ARTÍSTICA

Minha história com o esporte vem do berço, muito por influência dos meus pais e irmãos. Crescemos em uma família de atletas. Falar de esporte me dá brilho nos olhos. É a minha grande paixão.

Minha mãe era nadadora e meu pai judoca. No começo eles colocaram eu e meus irmãos no esporte para ocupar as tardes livres depois da escola. Eles queriam que a gente fizesse atividades físicas e não ficasse só em casa vendo TV. Meu pai me colocou no judô aos seis anos e minha irmã aos 11. A meta dele era que a gente fosse faixa preta, assim como ele. E foi exatamente a vivência desde a infância na natação e no judô que despertou nosso interesse pelo esporte. Mas chegou um momento para mim que o judô virou obrigação. Foi aí que vi que era preciso mudar.

Eu tinha nível para treinar com os mais velhos, mas não queria me dedicar mais. Enquanto esperava minha irmã terminar o treino dela com os maiores, que era depois do meu, eu ficava observando o treino da ginástica na sala ao lado. Via aqueles saltos e queria fazer também. Logo me interessei e perguntei se eu poderia entrar na aula, mas não tinha turma masculina. Naquela época surgiu a Daiane dos Santos e ela foi minha primeira ídola. Depois veio o Diego Hypólito, pioneiro no masculino, de quem virei fã e que me motivava por me mostrar que no Brasil também existiam ginastas campeões.

Quando surgiu uma oportunidade em outro lugar, já considerado tarde, por volta dos meus 10-11 anos, comecei a fazer aulas de ginástica artística todos os dias e logo peguei gosto pela coisa. Eu sabia que precisava aprender os fundamentos e os nomes dos movimentos. O básico de flexibilidade, rolamento, solo e salto. No início, conciliei os dois: ginástica à tarde e judô à noite. Isso me cansava muito e começou a gerar conflito.

A partir do momento que eu escolhi a ginástica para entrar no nível de alto rendimento, queria me dedicar por completo. Não era mais brincadeira. Quando meus pais se separaram, em 2006, e fui morar com a minha mãe, conversei com ela e disse que queria largar o judô para me tornar um ginasta profissional. Ela aceitou. Era esta carreira que queria para mim. Hoje meus pais são fundamentais para manter a minha cabeça no lugar.

Secretamente sempre sonhava em representar o Brasil na ginástica artística, mas no início era algo muito distante. Foi em 2007, quando conquistei meu primeiro campeonato brasileiro, que vi um futuro na carreira e acreditei mais. Meu objetivo então passou a ser competir nos Jogos Olímpicos.

O esporte é tudo para mim. Metade do tempo da minha vida foi praticando esporte. Com isso ganhei duas famílias. A de casa e a dos treinos, que muitas vezes convivo ainda mais. Toda esta educação e aprendizado foram essenciais para a minha formação. Os treinadores foram fundamentais na minha criação, o que se reflete nas minhas atitudes como determinação e foco. Desde pequenos aprendemos o que é bom, ruim, o que melhorar e a buscar aquilo que a gente realmente quer. O esporte ensina muito e tudo que eu conquistei até hoje na vida devo à minha criação neste meio.

Por outro lado, o dia-a- dia não é tão fácil quanto parece para o grande público. A gente precisa acordar cedo todos os dias. Os treinos começam pontualmente às 8h30 e vão até o fim da tarde. E ainda temos que encaixar consultas com o médicos, fisioterapeutas e psicólogos. A ginástica trabalha o nosso corpo inteiro e precisamos treinar com muita concentração, muita força, agilidade e potência. Também usamos uma academia fora para alcançar o rendimento que buscamos. Além disso, tem todos os nossos outros compromissos, como por exemplo a minha faculdade que faço à noite.

Sabe aqueles dias que a gente não acorda bem? Pois é. Mesmo assim a gente também tem que levantar e dar o nosso máximo no treino. O técnico está todo dia cobrando o que tem que cobrar, mostrando o planejamento e orientando para chegarmos bem nas competições. É uma rotina pesada e exaustiva. E eu me cobro muito também. Tanto dentro quanto fora do ginásio.

De uns anos para cá, houve um certo investimento na Ginástica Artística para o Ciclo Olímpico dos Jogos Rio 2016. Foi ali que eu comecei a competir com a equipe adulta. E a partir das provas de 2010, eu e meu técnico começamos a acreditar mais em mim. Eu estava muito perto dos meus adversários em termos técnicos. E isso me motivou a lutar para evoluir. Quando conquistei meu quarto lugar na barra, no Mundial, começamos a trabalhar os décimos que faltavam para eu chegar bem nos Jogos.

Participar dos Jogos Olímpicos do Rio foi a realização de um sonho. Foi a concretização daquilo tudo que sonhei desde pequeno. Incrível. No dia da conquista da medalha de bronze vivi um momento único, com minha família e amigos na plateia.

“E ver aquelas duas bandeiras subindo sob o pódio, ao lado do Diego, que eu via competir ainda criança, foi uma sensação única. A realização de qualquer atleta.”

Hoje eu tenho a noção de que quando você representa um país, você vira referência.

Já vejo que sou esta referência para muitos jovens. Isso me motiva ainda mais a ter bons resultados, pois eu sei como é ser fã de atletas que inspiram. E se um dia a Daiane e o Diego foram importantes para o meu desenvolvimento, hoje eu também posso ser importante para o desenvolvimento de outras pessoas. Fazer parte do Time Brasil é muito importante para mim. Eu treino duro e dou o meu melhor para representar bem o meu país e o meu clube. Eu adoro vestir este uniforme. Vestir ele significa ter o foco para acreditar e realizar. E eu quero trabalhar ainda mais para conquistar melhores resultados. O próximo passo é trabalhar mais a cabeça, me recuperar das cirurgias e cuidar bem do corpo.

Meu sonho é ser campeão olímpico e vou lutar para ele. Rumo a Tóquio 2020.

COB - Comitê Olímpico do Brasil | Nosso Time é o Brasil
Arthur Nory
Medalhista Olímpico
Ginástica Artística