Recomeço dourado

Alguns dos atletas do Time Brasil nos contaram o árduo caminho que percorreram para chegar no maior evento esportivo do mundo, os Jogos Olímpicos. E você, o que já superou na vida para chegar até aqui? Conte pra gente usando a hashtag #nossotimeéobrasil nas redes sociais.

Rafaela Silva campeã olímpica - judô

Em 1997, com 5 anos, comecei a fazer judô na Associação de Moradores na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. Eu queria jogar futebol, mas não tinha aulas para meninas. Então fui para o judô. Até hoje tenho vontade de jogar bola, pena que não posso correr o risco de sofrer nenhuma lesão.

Eu era considerada uma criança agressiva. Me chamavam a atenção os golpes e as quedas do judô. E eu quis entrar para fazer exatamente isso e extravasar a minha raiva. Só depois que entrei, é que vi que a coisa era totalmente diferente. Judô é disciplina. Eu poderia ser punida se brigasse na rua. E não queria isso. Então preferi seguir o que meu professor falava. Senão perderia treinos e outros benefícios que o treinador dava pra gente.

Meu treinador sempre disse que o diferencial entre as outras meninas e eu é que as outras meninas desistiam. E eu não queria parar. Eu estava acostumada a pular muro da vizinha para pegar bola e pipa, gostava de brincar com os meninos. Era algo incomum para as meninas da minha idade.

As pessoas já me falavam que eu não iria terminar o a escola, porque o judô me tiraria tempo. E hoje eu estou aí fazendo faculdade de Educação Física. Quando as pessoas falam que eu não sou capaz de fazer alguma coisa eu vou lá e faço, só para mostrar para mim mesma que sou capaz. Eu sou assim no esporte e na vida.

Sou movida por desafios. Agora estou em um novo momento. Tudo que um atleta de judô mais sonha, que é conquistar um Mundial e um Ouro Olímpico, eu já consegui. Então agora qual vai ser a minha motivação para acordar todos os dias para treinar? Agora as minhas metas e objetivos vão mudar, e é um trabalho a longo prazo. Meu próximo objetivo é ganhar um Grand Slam. A vida de atleta é assim, de altos e baixos. Depois dos Jogos Olímpicos de Londres, pensei em parar. Eu era tida como uma das favoritas da competição, era 4 a do ranking, e fui eliminada na segunda rodada. Eu vinha de uma final do mundial e me sentia bem. Mas depois da derrota sofri uma chuva de críticas e insultos.

Disseram que o judô não era mim, que eu era a vergonha da minha família, que eu nunca ganharia nada por ser negra.

Fiquei muito chateada por não ter realizado meu sonho da medalha em 2012, mas fiquei mais ainda por saber que as pessoas poderiam me agredir novamente pelas redes sociais ou quando eu andasse nas ruas. Eu saí da competição e fui direto para a Vila Olímpica. Entrei no meu quarto e logo que desbloqueei meu telefone, comecei a ler no Twitter muita coisa ruim. Eu já estava triste com a eliminação. E com mais essa situação acabei ficando muito estressada. Com a cabeça quente, acabei respondendo alguns comentários. Eu só queria voltar para casa. Em vez de estar onde queria estar, com minha família e amigos, eu estava nas redes sociais discutindo com um monte de gente que estava me criticando. Eu só queria ser acolhida pela minha família e meus amigos. Ali eu falei pro meu treinador que não queria mais fazer judô.

Eu não queria mais ser agredida de nenhuma forma. Em casa, meus pais tentavam me dar todo o apoio para levantar meu ânimo, para me fazer voltar. Todo dia minha mãe cozinhava meu prato preferido para me agradar. Depois que eu voltei dos Jogos Olímpicos de Londres fiquei uns três meses sem treinar nem competir. Foi então que conheci uma voluntária, uma coach do Instituto Reação, que a minha irmã falava muito bem. Aí eu fui convidada para assistir a uma palestra dela. Foi incrível. Parecia que tudo que ela estava falando era direcionado para mim.

Ela disse que se meu sonho de criança era ganhar uma medalha olímpica, eu teria uma nova chance nos Jogos Rio 2016. Ela me perguntou:
- “Se você estivesse de fora dos Jogos na sua cidade, assistindo às competições de casa, como você iria se sentir? Aceitaria isso?”.
Comecei a pensar que teria mais uma chance, pois quando uma porta se fecha não sabemos quando outra se abrirá novamente. E esta porta se abriria para mim, pois eu tinha 19 anos em 2012 e teria 23 em 2016.

Foi quando eu disse ao meu treinador que eu queria sim disputar uma vaga nos Jogos e que eu não entraria só para participar.

Logo depois me tornei campeã Mundial, virei a minha chave e comecei a acreditar que eu poderia ser uma medalhista olímpica nos Jogos Rio 2016. Lutar nos Jogos Olímpicos é o sonho de qualquer um. Mas em casa, na frente dos nossos amigos e familiares, é totalmente diferente.

Com a minha conquista do ouro, não realizei apenas o meu sonho, mas também o do meu treinador, da minha família e de todos que me acompanham. E para quem ficou chateado com a minha derrota em Londres, eu pude dar esta alegria. Quando eu subi naquele pódio, só de saber que as pessoas não iriam me julgar, foi uma sensação de alívio. Sabia que ao descer dele as pessoas não iriam me criticar.

“Sobre Londres, passei uma borracha por cima. O assunto ainda mexe um pouco comigo,mas só de saber que hoje em dia as pessoas lembram mais de mim pela vitória e não pela derrota, isso me ajuda a seguir em frente.”

Eu queria representar bem o meu país. Muitos diziam que se antes eu era uma promessa, naquele momento eu tinha virado uma incógnita, pois tinha perdido para atletas que nunca tinha perdido antes e caído para 14 a do ranking mundial. A cada luta que eu entrava em 2016, eu lembrava do que sofri depois de Londres. Como eu não queria viver nada daquilo novamente, as lembranças acabaram me fortalecendo nos Jogos. Cada luta foi uma final. Nos minutos que antecediam cada luta, focava na estratégia.

Hoje em dia, todas as adversárias já conhecem a Rafaela Silva e sabem meu jeito de lutar. Então eu tenho que mudar. Mas mudar no judô, não é de uma hora para outra. É preciso tempo, treino e confiança. Agora treinar é mais difícil do que era antes.

Hoje voltei a ser faixa branca. E agora meu foco é aprender coisas novas. Eu aprendi muito nos últimos anos. Me sinto grata por ser referência para muitas crianças. Procuro mostrar que independente de termos vindo de uma comunidade pobre ou de um bairro rico, o mais importante é o que a gente tem dentro da gente, os nossos sonhos e os nossos objetivos. Procuro mostrar que muitos tentam nos botar para baixo. Mas precisamos aproveitar as oportunidades e vencer na vida independente da origem.

É preciso entrega para entrar na luta e dar o seu melhor. Força de vontade é o que todos devemos ter para trabalhar e conquistar.

Agora minha meta é conquistar a minha vaga para os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, que será um ano especial. Se antes tivemos a oportunidade de competir na nossa casa, agora teremos a chance de competir no Japão, a casa do nosso esporte.

Fazer parte do Time Brasil é muito importante, pois é o objetivo de todo atleta. É saber que você carrega a bandeira do seu país no peito. E no pódio, você não sobe sozinho; sobe junto com todo o seu país. É muito gratificante vestir esta camisa. É um sonho realizado. É o primeiro passo para a sua medalha olímpica. É quando o atleta veste a armadura para ir para a guerra.

COB - Comitê Olímpico do Brasil | Nosso Time é o Brasil
Arthur Nory
Medalhista Olímpico
Ginástica Artística